A Vila de Sajama, a velha de Sajama

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Ponte misteriosa que liga a vila ao pasto das llamas
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Casas de barro construídas para barrar o intenso frio, às vezes temperaturas negativas
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Rebanho de llamas curiosas olhando em direção ao sol
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Ruminante andino, sua carne serve de alimento, sua lã é muito quente
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Cercado para proteger as llamas dos chacais durante a noite
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Igreja do século XVI

         À sombra do
monstruoso gigante alvo e gelado Sajama moram uma centena de pessoas em casas de barro. A montanha de mais de 6.000 metros divide Chile e Bolívia. Os aldeões criam llamas para fazer lã e carne ou ganham algum dinheiro hospedando estrangeiros. O parque com buracos que soltam água fervente e montes com gigantismo recebe montanhistas de olhos claros e gente que crê em algum misticismo. Contam as cholas bolivianas que uma figura deste tipo desapareceu nas alturas quando saiu para meditar nas montanhas, apenas encontraram suas roupas e pertences ao lado de um gê
iser borbulhante. É provável que em Sajama andem mais llamas do que gentes. Estes estranhos animais, para não serem devorados por chacais, dormem em cercados sinistros que parecem estacas de madeira no meio do nada.

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Crianças caem das bicicletas apostando corrida

Fazia frio intenso e a neve úmida estava prestes a cair. Para sair d
os limites do parque depende-se de uma van que só parte apinhada de gente algumas horas antes da alvorada. O veículo vai até a cidade mais próxima, de onde se costuma partir para a grande cidade que cresceu dentro de um vale profundo, La Paz.

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Chapa fotovoltaica auxilia no abastecimento energético

A aldeã Maria tem uma venda, onde se compra papel higiênico, bolachas, sucos, macarrão e chocolates que não têm gosto de chocolate. Também vende ponchos, mantos de lã típicos, desayuno, almuerzo e cena. Ela estava sentada no primeiro degrau da porta, descansando por um momento, quando os forasteiros chegaram. Já é idosa, usa uma saia rodada longa, um casaco e um chale quentinho que acompanha o comprimento das tranças negras. Quando levanta pela manhã para cuidar de seu rebanho de ruminantes andinos, lembra-se dos três mandamentos incaicos: “Ama sua, ama llulla, ama quella” (“Não roube, não mintas, não seja preguiçoso.”). Ela é uma figura imponente, transmite mais saber e dignidade que o próprio Sajama nevado.

Os quatro estrangeiros entraram no pequeno estabelecimento para comer. Sem perguntar o que queriam exatamente, Maria serviu quatro pratos de sopa morna com pedaços de llama, batata e acompanhamento de pão dormido. Ninguém se atreveria a pedir para esquentar a comida ou outra extravagância qualquer. Aquele espaço era a casa da aldeã, onde vigoravam suas regras e sua ordem de mundo. E assim foi todos os dias, nas três refeições, a mesmo prato. Sua presença forte e sábia intimidava os urbanóides. Quando ela perguntava se os viajantes tinham gostado da comida, eles quase tremiam. Deixar um grão no prato parecia uma terrível ofensa.

A chola fazia poucas perguntas. Indagou sobre a viagem: para onde estávamos indo e de onde viemos. E assentia com a cabeça ou franzia o cenho em uma atitude de distanciamento e largueza. Às vezes troçava, repetia uma frase mal formulada que alguém dissera e quase sorria. Não conseguia não achar gozado o jeito daqueles jovens que ficavam nervosos ao pedir uma bebida. Pareciam não ter mais o que fazer, porque  saíam de sua terra para estar ali, onde tudo era normal, pareciam sofrer de uma estranha futilidade.

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Géisers: podem ser alcançados por caminho de duas horas desde a aldeia

– Que horas devemos sair para ver a fumaça dos gêiseres?

– Umas 6:15.

– É bonito lá.

– Sim muito. Os que vêm aqui sempre vão lá.

Na última noite, uma das viajantes já estava afetada pelo sofrimento causado pela velha de Sajama. Sentia que ela a vigiava, reparando cada d
etalhe: como comia, o quanto e se gostava. Além de observar o que dizia, como se vestia e até o que pensava, Maria parecia ter esse atributo sobrenatural. A estrangeira acreditava que Maria estava maltratando-a e servindo comida cada vez mais fria e sem sal. Numa tarde, sentiu-se mal por conta da escassez de oxigênio e não foi com os outros almoçar. A senhora sentiu a ausência da niña e deu uma risadinha quando soube do mal estar. No dia seguinte, tentou-se comer em outro lugar que não na venda, mas foi em vão, era o único local organizado suficientemente para lhes servir.

Na última noite, os quatro foram tomar uma cerveja, Paceña, à temperatura ambiente, como tomam os bolivianos. Estranharam a presença de duas mulheres, um italiana, uma escandalosa espanhola e um senhor argentino metido a sagaz.

A italiana, Jessica, queria comprar meias, toucas e cachecóis para vender em Euros na cidade de Nápoles. Insistiu em saber se as peças eram de verdadeira lá de alpaca ou meramente sintéticos. Maria respondeu:

– És pura alpaquita, pura alpaquita.

O senhor argentino interpretando o papel de um especialista da indústria têxtil disse: “Yo ya trabajei con esto.” E certificou que Jessica podia confiar que era pura alpaca mesmo. A italiana comprou um quilo de peças para descobrir por acaso, em La Paz, que tudo que comprou era puramente sintético.

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